tenho um gato no telhado,
um retrato a preto e branco,
das memórias e promessas que deixo guardadas num canto,
vou cantando no nevoeiro onde as ruas não me vêm,
as mesmas que me conhecem,
as mesmas que me esqueçem,
as mesmas que nunca te viram e já cá estavam,
as mesmas que vão deixar de te ver depois de cá estares,
juntas as botas para voltar a um lar
junto as vontades aos pares,
contas de números primos e ímpares,
trios e sonetos de inspiração solta,
todos sentem a mágoa de um tempo que não volta,
há quem sinta a saudade e não saiba o que lhe chamar,
há quem esprema pétalas num gesto difícil de lembrar,
há quem limpe as lágrimas para sorrir e sonhar
há quem voe alto enquanto não se pagar
a quem oiça o que tu dizes quando não falas,
os teus olhos são entradas noutras galáxias e tu calas,
os desejos para que não te oiçam,
quando no fundo penetram-te o olhar para ler a alma,
todas as borboletas poisam,
dá-me uma poção, deixa-me conhecer-te letra a letra,
o universo é outro quando pego na caneta,
e descrições a mais já encheram a gaveta,
"muda-se o mundo num segundo", seguro a corda e a palheta.
pergunto-me o que se passa na cabeça do gato,
enquanto chove não sai do meu telhado,
vejo a lua por uma esquina de vapor iluminada,
o que acreditas ser amor não te conhece apavorada,
não consigo ver alguns reflexos deste urso muito pardo,
as vezes não compreendo os complexos deste parvo,
as vezes é uma rosa, outras vezes é um cravo,
não deixo a minha clave de sol cair sem significado.
Depois do amor partir,
a amizade dissipa,
mas se algum deles sorrir,
não compliques, participa
se eu parti tive a minha iniciativa,
não podes dizer que tive uma fraca tentativa,
segredo teu, de quem tu és, muda o ciclo das marés
tenho um gato no telhado que ama chuva,
eu sou um pardo, o mesmo parvo
que sempre amou cada uma,
palavra tua.
Sexta-feira, 9 de Dezembro de 2011
palavra tua.
: Flávio Moreno Esteves :: Sexta-feira, Dezembro 09, 2011
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